domingo, 10 de maio de 2015

A un gato (Jorge Luis Borges)

No son más silenciosos los espejos 
ni más furtiva el alba aventurera; 
eres, bajo la luna, esa pantera 
que nos es dado divisar de lejos. 
Por obra indescifrable de un decreto 
divino, te buscamos vanamente; 
más remoto que el Ganges y el poniente, 
tuya es la soledad, tuyo el secreto. 
Tu lomo condesciende a la morosa 
caricia de mi mano. Has admitido, 
desde esa eternidad que ya es olvido, 
el amor de la mano recelosa. 
En otro tiempo estás. Eres el dueño 
de un ámbito cerrado como un sueño.

A um gato

Jorge Luis Borges

Os espelhos não são mais silenciosos,
nem mais furtiva a alba aventureira:
és, sob a lua, essa pantera
que vemos de soslaio. 
Por obra indecifrável de um decreto
divino, te buscamos em vão:
mais remoto que o Ganges e o poente,
tua é a solidão, teu, o segredo. 
Teu lombo acede à amorosa
carícia da minha mão. Admitiste,
desde esta eternidade, que já esqueceste
o amor de minha mão receosa. 
Estás em outro tempo. És o dono
de um lugar fechado como um sonho.

Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta 




domingo, 22 de maio de 2011

O anjo e o gato (Thereza Christina Motta)

Para Pat Lau

Que anjo desce sobre a porta
e ausculta quieto o nosso sono?
Anjo de asas brancas, alvíssimas
como um manto.
As flores nos teus cabelos
emolduram teu rosto.
E todas as coisas têm sua ordem
desordenada.
Um pequeno caos de coisas.
Depois o gato, a observar, pacífico,
o anjo que passa.

9h26 - 14/2/2011

Um gato preto ainda cedo me faz pensar (Ricardo Alfaya)

Não creio que um gato
Por mais preto que seja
Por mais vidas que tenha
Poderá entender a minha dor
Mesmo que me olhe com o brilho
De seus olhos de vidro
Que balance lentamente o rabo
Quebrando o silêncio com um miado fino
Não há nada que esse bichano possa fazer por mim
Não há nada
Apenas a macia cor de sua pele me fará lembrar
Logo anoitecerei sozinho

Gato ao crepúsculo (Millôr Fernandes)

Poeminha de louvor ao pior inimigo do cão
 
Gato manso, branco,
Vadia pela casa,
Sensual, silencioso, sem função.
Gato raro, amarelado,
Feroz se o irritam,
Suficiente na caça à alimentação.
Gato preto, pressago,
Surgindo inesperado
Das esquinas da superstição.
Cai o sol sobre o mar.
E nas sombras de mais uma noite,
Enquanto no céu os aviões
Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde,
Terminam as diferenças raciais.
Da janela da tarde olho os banhistas tardos
Enquanto, junto ao muro do quintal,
Os gatos todos vão ficando pardos.
 

Lições de um gato siamês (Ferreira Gullar)

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
       finita
       da minha precariedade  
O tempo fora
 de mim
            é relativo
 mas não o tempo vivo:
 esse é eterno
 porque afetivo
 — dura eternamente
   enquanto vivo
 E como não vivo
 além do que vivo
 não é
 tempo relativo:
 dura em si mesmo
 eterno (e transitivo)


                                       

Dar nome aos gatos (T.S. Eliot)

O nome dos gatos é um assunto matreiro.
     E não passatempo para entreter parentes:
Podem me achar doido igual a um chapeleiro.
     Mas um Gato tem TRÊS NOMES DIFERENTES.
O primeiro é o nome que a família mais usa.
     Como Pedro, Augusto, Estêvão, Oliveiros.
Como Vítor, Jorge, ou Jonas ou Fiúza...
     Mas nomes nomes que são no entanto corriqueiros.
Outros há pomposos, que parecem mais chiques
     Sejam para as damas ou para os cavalheiros:
Como Electra, Egeu, Inês, Afonso Henriques...
     Mas nomes que são no fundo corriqueiros.
Ora afirmo: um gato apenas se completa
     Com um nome que seja peculiar e distinto;
Como iria então manter a cauda ereta,
     Erguer os bigodes e acalentar o instinto?
Dos nomes da espécie, a lista é pequenina:
     Como Munkustrap, Quaxó, Coricopato,
E Ágata talvez, talvez Bombalurina...
     Nome que se aplica apenas a um só gato.
Mas acima e além, um nome se exorciza,
     Esse que jamais nos viria à cabeça,
Procurando em vão pela humana pesquisa...
     Só O GATO SABE, mas a ninguém confessa.
Se vires um gato em profundo mutismo,
     Saibas a razão que o tempo lhe consome:
Sua mente paira a divagar no abismo
     E ele pensa, e pensa, e pena no seu nome:
             No inefável afável
             Inefanifável
Fundo e inescrutável sentido de seu Nome.

        (Tradução de Ivo Barroso)

O Gato (Donizete Galvão)

O gato é secreto.
Tece com calma o mistério do mundo. O gato é elétrico.
Pura energia a percorrer a espinha.
O gato é orgulho.
Sem humildade, jamais se entrega.
O gato é desejo.
Atração pela lua e telhados.
O gato é sagrado.
Olho no olho que brilha.
Um susto.
Parece que vemos Deus.

         in "Azul Navalha", Edições Excelsior, 1988, SP